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Greice Schneider

Não sei se por ironia do destino ou se por mera coincidência, a rua em que vivi durante minha infância chamava-se Jornalista Paulo Costa. Não faço idéia de quem seja Paulo Costa, mas o simples fato de ter o nome de um jornalista encabeçando o endereço em que morei enquanto criança me faz refletir, hoje, sobre como vim parar em Salvador e estudar comunicação na Universidade Federal da Bahia.

Tentarei então expor o fruto dessas reflexões e analisar as causas dessa minha escolha (posso dizer induzida por certas experiências de vida).Talvez os relatos registrados aqui não tenham sido, de fato, os mais decisivos para chegar à posição em que hoje me encontro. No entanto, foram os que mais me marcaram no plano particular, tendo, para mim, um significado único e especial.

Relato 1

Ser criança em um bairro isolado de um núcleo urbano, numa época em que os pais precisam trabalhar fora e que brincar de pega-pega na rua não é muito aconselhável, foi uma tarefa árdua. Ainda mais se acrescentarmos que os programas de TV (que, como o ATARI*, era a companhia inseparável da maioria das crianças residentes em grandes cidades) não me atraíam nem um pouco.

Restava-me apenas preencher o tempo livre lendo histórias em quadrinhos do Maurício de Souza (pois também nunca fui muito adepta aos quadrinhos do Disney, sobretudo quando descobri as mensagens subliminares neles escondidas) e escutando o bolachão** da Arca de Noé***.

E foi em meio a essa atmosfera aparentemente pacata e solitária que surgiu o chamado "FOLHINHA DA RUA". Tive a idéia estapafúrdia de reunir toda a pirralhada da vizinhança para criar um jornal que nos proporcionasse mais diversão e fizemos uma espécie de "brainstorm mirim" acerca daquilo que gostaríamos que fosse publicado.

Como mal sabíamos escrever, o "jornal" passou a ser constituído basicamente por ilustrações de nossa autoria sobre músicas e acontecimentos que nos rodeavam. Inspirados novamente pelos gibis, acrescentamos uma seção de passatempos e um "troca-troca" de figurinhas adesivas.

A brincadeira durou pouco mais de dois anos. Muitos "membros da redação" foram obrigados a "renunciar a seus cargos" por "motivos de força maior". A escola começava, cada vez mais, a exigir nossa atenção. Mas a experiência, acredito eu, além de divertida, foi bastante válida.

*ATARI: Ancestral dos videogames de 64 bits que encontramos hoje. Muito popular entre as criaças nos anos 80

**bolachão: disco de vinil. Substituído pelo CD no final dos anos 80 (se não me falha a memória), tornou-se objeto obsoleto, consumido apenas por colecionadores de antiguidades

***Arca de Noé: Projeto musical destinado à crianças feito por Toquinho e Vinícius de Morais.
 
 

Relato 2

Nunca havia, de fato, despertado para a dimensão do poder de inluência que os meios de comunicação (sobretudo os de massa) exercem sobre os mais variados tipos de sentimento humano. Ouvia falar às vezes, e até concordava sem muito refletir, que a mídia influenciava pessoas. Mas só fui compreender realmente o significado dessa afirmação quando me flagrei chorando e sofrendo pela morte de um homem que nem sequer fazia parte da minha realidade cotidiana. Tal descoberta aconteceu no ginásio.

A missa de sétimo dia da morte de Ayrton Senna iria ser transmitida pela televisão e o colégio onde estudava decidiu que todos os alunos prestariam uma "homenagem ao falecido". Comovidos, cantamos todos o hino nacional e a música de Milton Nascimento (dita como predileta do campeão). Meus colegas se encontravam aos prantos. Era a primeira vez que os mais de 2000 alunos se reuniam na quadra de esportes da escola. E foi em meio a soluços e vozes que ecoavam que ! "amigo é coisa pra se guardar(...) dentro do coração" que percebi que aquele sujeito que havia morrido não era nenhum herói brasileiro, nem tampouco meu amigo. Chorei ainda mais ao perceber que havia desperdiçado lágrimas à toa e ao presenciar aquela adoração sem sentido a um piloto de fórmula 1, enaltecido pela mídia e alimentado pela nossa necessidade intrínseca de criar e nos apoiar em mitos.

Mais tarde, pude rever, não sem revolta, esse mesmo tipo de manifestação ocorrendo com outras personalidades. Mas foi me surpreendendo com a minha própria atitude, aparentemente inexplicável, que tomei consciência dessa capacidade de mobilização que uma notícia divulgada de uma determinada maneira é capaz de exercer.

Relato 3

Recordo-me muito enraivecida de um episódio que aconteceu no auge da minha fase rebelde de adolescente.Estava muito ansiosa para assistir ao polêmico filme de Oliver Stone, Natural Born Killers*. Como frequentadora assídua dos numerosos dois cinemas de Aracaju, já havia lido algumas críticas sobre o filme e já tinha notícias sobre sua repercussão entre os jovens americanos.

O filme iria, finalmente, ser exibido na cidade. Por ser um filme fora dos padrões enlatados holywoodianos campeões de bilheteria, Assassinos por Natureza teria apenas duas exibições no horário do chamado "CineArte" (minha sessão preferida que permitiu que eu tomasse conhecimento, entre outras coisas, da trilogia francesa de Kielowski**).

Enfim, cheguei ao cinema com alguma antecedência, como me era de costume, e me dirigi à bilheteria. Lá chegando, quase sofro um enfarte quando a vendedora anunciou que eu não poderia ter acesso ao cinema devido à minha pouca idade. Eu, que naquela época já me considerava uma adulta, quis partir pra discussão. Mas não houve acordo.Fiquei de fora. Mais tarde (mas não esperando os 18 anos regulamentados pela censura) pude assistir ao filme em vídeo e pude constatar e analisar todos aqueles elementos sobre os quais havia lido anteriormente e que tanto me interessavam. E, é claro, achei o filme realmente pesadíssimo quanto à violência visual.

* Assassinos por Natureza - Filme sobre um casal de assassinos que matavam cruelmente várias pessoas ao longo de sua jornada sem nenhum motivo aparente além do próprio "prazer de matar".

A questão central do roteiro trata sobre o endeusamento do casal assassino pela mídia, que faz uma falsa e subliminar idealização dos dois (embora um tanto quanto convincente e persuasiva). A juventude, influenciada pelos ídolos, passa a querer seguir seus passos e provoca uma onda de violência sanguinária.

**não estou bem certa quanto à grafia, mas ele é um cineasta polonês que morreu recentemente.

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